Participação das mulheres no Congresso
- Anna Carolina Romano
- 8 de mar. de 2023
- 5 min de leitura
Atualizado: 14 de mar. de 2023

Ainda que estejamos longe de alcanƧar um cenĆ”rio igualitĆ”rio, nos Ćŗltimos anos, temos acompanhado um aumento significativo na participação das mulheres no Congresso Nacional. Embora ainda haja um longo caminho a se percorrer, essas mudanƧas sĆ£o um passo importante para garantir a igualdade de gĆŖnero na polĆtica brasileira.
AtĆ© o inĆcio da dĆ©cada de 1930, as mulheres nĆ£o tinham nenhuma participação polĆtica no Brasil. Foi só em 1932, após a criação da JustiƧa Eleitoral, por meio do Decreto 21.076, do entĆ£o presidente GetĆŗlio Vargas, que o direito ao voto para mulheres alfabetizadas foi concedido.
O direito ao voto feminino simboliza a inserção das mulheres nas decisƵes polĆticas do paĆs, alĆ©m de reforƧar ainda mais o compromisso com a democracia. Mas, para aquelas que encabeƧam a luta pelos direitos das mulheres, a realidade Ć© que nĆ£o se pode deixar de reforƧar o quanto essas vitórias se deram somente depois de vencer muitos desafios. Ou seja, nada foi concedido, mas conquistado.
Essa realidade Ć© confirmada quando nos deparamos com o cenĆ”rio da participação das mulheres no Congresso. O Brasil Ć© um paĆs em que a maioria da população Ć© composta por mulheres, alĆ©m delas formarem mais de 53% do eleitorado brasileiro. No entanto, a bancada feminina na CĆ¢mara dos Deputados representa apenas 91 (17,7%) das 513 cadeiras ocupadas.
Na Ćŗltima legislatura, este Ćndice era ainda menor. Nas eleiƧƵes de 2018, apenas 77 mulheres foram eleitas deputadas federais. De acordo com dados oficiais da CĆ¢mara dos Deputados, em 2022, as candidatas mulheres foram as mais votadas em oito estados e no Distrito Federal.
O Senado Federal também atingiu seu número recorde de mulheres para a atual legislatura. No total 15 senadoras compõem a bancada feminina, porém o crescimento é resultado da chegada de quatro suplentes, responsÔveis por substituir os parlamentares nomeados para os Ministérios do atual governo. Todavia, caso não assumissem como suplentes, o número de senadoras seria menor em relação à legislatura anterior, com apenas 11 mulheres.
Um ranking feito pela UniĆ£o Interparlamentar (UIP), organização que analisa a composição de parlamentos, constatou que o Brasil ocupa a 146ĀŖ posição na participação de mulheres entre 193 paĆses analisados. Na AmĆ©rica Latina, Cuba e MĆ©xico foram os paĆses que apresentaram os melhores desempenhos.
A presenƧa feminina na polĆtica tem ganhado espaƧo em discussƵes sobre o tema, e tambĆ©m tem sido mais valorizada. Principalmente, em um contexto em que a diversidade e a inclusĆ£o, assim como o conceito de representatividade, sĆ£o cada vez mais latentes em nossa sociedade.
Representatividade feminina
Ć importante destacar que a presenƧa das mulheres no Congresso nĆ£o Ć© apenas uma questĆ£o de representatividade, mas tambĆ©m de qualidade da democracia. As mulheres tĆŖm pautas e demandas especĆficas que precisam ser discutidas e atendidas, e sua presenƧa na polĆtica Ć© fundamental para que essas questƵes sejam debatidas e solucionadas.
Um dos grandes marcos para a conquista das mulheres no Ć¢mbito das polĆticas pĆŗblicas Ć© a criação da Lei 11.340/02, mais conhecida como Lei Maria da Penha. O projeto foi sancionado em 7 de agosto de 2006, e criou mecanismos para prevenir e coibir a violĆŖncia domĆ©stica e familiar contra a mulher.
Desde então, a lei passou por atualizações para estar em conformidade com as necessidades das mulheres. Atualmente, a legislação jÔ estÔ adequada, por exemplo, para punir prÔticas criminosas online - crimes que não eram frequentes na época em que a lei foi sancionada.
A Lei Maria da Penha Ć© uma das mais populares no paĆs, e tambĆ©m uma das mais abrangentes quando se trata de polĆticas pĆŗblicas voltadas para a mulher. Ela conseguiu alinhar normas e mecanismos que envolvem saĆŗde, seguranƧa e justiƧa, alĆ©m do envolvimento de governos estaduais, municipais e federal.
Diversidade feminina
Mas nem todas as necessidades das mulheres sĆ£o abraƧadas por uma Ćŗnica lei. A polĆtica Ć© um campo onde as vozes das minorias muitas vezes sĆ£o sub-representadas, e isso inclui as mulheres trans e negras, as quais tĆŖm enfrentado discriminação e preconceito hĆ” sĆ©culos. Elas sĆ£o frequentemente marginalizadas e ignoradas pela sociedade, inclusive pelos decisores governamentais.
No Senado, por exemplo, para a legislatura atual, nĆ£o hĆ” nenhuma mulher negra na bancada. Na CĆ¢mara dos Deputados, as mulheres negras representam apenas 1% dos parlamentares. Este cenĆ”rio mostra como o racismo dificulta ainda mais o posicionamento deste grupo, apesar de 27% da população feminina do paĆs se declarar negra, segundo pesquisa do Instituto Brasileiro de Geografia e EstatĆstica (IBGE).
De acordo com Joyce Souza, coordenadora do projeto Pretas no Poder, analisando os dados demogrĆ”ficos nĆ£o hĆ” a possibilidade de representatividade, e o impacto sofrido Ć© o aumento do racismo estrutural. Dessa forma, mesmo que algumas discussƵes avancem, as polĆticas acabam nĆ£o chegando a mulheres negras e perifĆ©ricas.
E, na luta por direitos e representatividade, quem chegou para fazer história na polĆtica brasileira foram as deputadas Erika Hilton (PSOL- RJ) e Duda Salabert (PDT-MG). Elas sĆ£o as primeiras mulheres trans a ocupar cargos no Congresso.
Veja alguns momentos históricos da participação das mulheres na polĆtica brasileira:
1910: Criação do primeiro partido polĆtico feminino;
1932: Direito ao voto feminino;
1933: Eleita a primeira parlamentar mulher (Carlota Pereira de Queirós);
1934: Eleita a primeira parlamentar negra (Antonieta de Barros);
1988: Direito ao voto para mulheres analfabetas;
2014: Eleita a primeira mulher tetraplƩgica como deputada federal (Mara Gabrilli);
2018: Eleita a primeira mulher indĆgena como deputada federal (Joenia Wapichana);
2022: Eleitas as duas primeiras mulheres transexuais como deputadas federais (Erika Hilton e Duda Salabert).
As dificuldades da mulher na polĆtica
A participação feminina na polĆtica brasileira ainda enfrenta muitos desafios. AlĆ©m da sub-representação em cargos pĆŗblicos, as mulheres enfrentam maiores dificuldades para obter acesso aos recursos financeiros e Ć s redes polĆticas, o que poderia ajudar na candidatura e no sucesso durante as eleiƧƵes.
A falta de apoio e a baixa representatividade feminina em cargos de lideranƧa dentro de seus partidos, ou de instituiƧƵes polĆticas que atuam, Ć© outro fator que contribui para que as mulheres nĆ£o avancem nas carreiras polĆticas.
Este fator pode estar ligado diretamente à discriminação de gênero, em que as mulheres enfrentam preconceitos e estereótipos, o que pode afetar a sua credibilidade e a habilidade de influenciar as decisões de stakeholders.
Por fim, por se tratar de um meio predominantemente ocupado por homens, a polĆtica acaba se tornando um ambiente em que o machismo Ć© amplamente disseminado, fazendo com que as mulheres passem por situaƧƵes de violĆŖncia, tais como ameaƧas verbais e fĆsicas.
SĆ£o esses motivos que fazem do Dia Internacional das Mulheres uma data de extrema importĆ¢ncia, pois Ć© um lembrete de que a luta por direitos Ć© contĆnua e que depende da participação de toda a sociedade.
Se vocĆŖ precisa monitorar as pautas que sĆ£o relevantes para a garantia de direitos das mulheres, conheƧa a Inteligov e os benefĆcios de acompanhar os assuntos do seu interesse.


