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Futebol e leis: o que a Copa do Mundo 2026 tem a ver com legislação

  • Foto do escritor: Anna Carolina Romano
    Anna Carolina Romano
  • há 1 dia
  • 6 min de leitura

Card de divulgação do episódio Entrelinhas, com o título “Copa do Mundo 2026: quais são as leis e regras do futebol?”, ao lado de uma bola de futebol sobre documentos, caneta e celular em um estádio iluminado.
Antes da bola rolar, as regras já estão em campo.

Copa do Mundo 2026: quais são as leis e regras do futebol?


A Copa do Mundo 2026 está em andamento, com 48 seleções disputando 104 jogos entre Estados Unidos, Canadá e México. É o maior torneio da história da competição em número de participantes e um dos maiores espetáculos econômicos do planeta. Mas enquanto o mundo acompanha gols, escalações e polêmicas de arbitragem, existe uma camada desse fenômeno que quase ninguém para para examinar: o futebol é, antes de tudo, uma construção jurídica.


Cada transferência de jogador, cada contrato de patrocínio, cada ingresso vendido, cada clube que entra em crise financeira, cada torcedor barrado num estádio: tudo isso está regulado por leis. Leis que foram debatidas, votadas, aprovadas e, em alguns casos, contestadas na Justiça por décadas. Entender essas normas é entender como o esporte mais popular do mundo se tornou também um dos setores mais regulados da economia.


Por que o futebol precisa de leis

A resposta está no tamanho que o futebol tomou. O Brasil movimenta, só no Campeonato Brasileiro, um mercado estimado em mais de 11 bilhões de reais em valor de clubes. A Copa do Mundo gera dezenas de bilhões de dólares em impacto econômico para os países-sede. Quando há dinheiro nessa escala, há contratos. Quando há contratos, há disputas. Quando há disputas, há necessidade de regras claras.

Mas o futebol também não é só negócio: é identidade, cultura, espaço de convivência de massa. E onde há convivência de massa, o Estado sempre aparece. Segurança nos estádios, relação entre clubes e torcedores como consumidores, obrigações fiscais, direitos trabalhistas dos atletas: tudo isso é matéria de lei. No Brasil, esse arcabouço jurídico foi sendo construído ao longo de décadas, no mesmo ciclo de políticas públicas que molda qualquer outra área da vida coletiva.


Lei Pelé: o fim da lei do passe


A primeira grande referência é a Lei Pelé. Sancionada em 1998, a Lei 9.615 foi o ponto de virada do futebol brasileiro moderno. Ela fez duas coisas fundamentais: extinguiu a chamada lei do passe e regulamentou os contratos de trabalho dos atletas profissionais.


A lei do passe era um mecanismo pelo qual os clubes detinham os direitos do jogador mesmo depois que o contrato acabava. Na prática, o atleta não podia se transferir livremente: o clube decidia se autorizava ou não, e cobrava por isso.


A Lei Pelé acabou com essa lógica no Brasil, inspirada diretamente por um precedente internacional: o Caso Bosman. Em 1995, o Tribunal de Justiça da União Europeia decidiu a favor de Jean-Marc Bosman, jogador belga que questionou judicialmente a proibição de se transferir livremente ao fim do contrato. A decisão, conhecida como Lei Bosman, transformou o mercado de transferências europeu: ao fim do vínculo, o jogador passou a ser livre para assinar com qualquer clube sem custo de transferência. Esse princípio chegou ao Brasil três anos depois, com a Lei Pelé.

A nova legislação também definiu que os contratos de atleta profissional têm prazo determinado, com duração mínima de três meses e máxima de cinco anos, uma lógica bem diferente das relações de trabalho comuns e que reflete a natureza específica da carreira esportiva.


Infográfico com fundo azul escuro e o título “O futebol também é lei”, destacando cinco temas ligados à legislação esportiva: Lei Pelé, Estatuto do Torcedor, Lei da SAF, Lei Geral do Esporte e debates atuais sobre fair play, agentes e apostas.
Do contrato do atleta à governança dos clubes, o futebol também é moldado por leis e regras.

Estatuto do Torcedor: o público como consumidor


Em 2003, outro marco: o Estatuto do Torcedor, a Lei 10.671, reconheceu o torcedor como consumidor de um serviço esportivo. Antes dessa lei, quem comprava um ingresso e assistia a um jogo cancelado de última hora, ou sofria algum tipo de violência num estádio, tinha pouco amparo legal. O Estatuto criou direitos concretos: informação antecipada sobre data, horário e local dos jogos, segurança, transparência sobre as finanças dos clubes e responsabilização dos organizadores por acidentes.


A Lei Pelé e o Estatuto do Torcedor, somados à Lei de Incentivo ao Esporte e à Lei da Bolsa Atleta, formaram por anos a espinha dorsal da legislação esportiva brasileira, até que em 2023 veio uma mudança estrutural.


Lei Geral do Esporte: tudo em um único texto


Em junho de 2023, o presidente Lula sancionou a Lei Geral do Esporte, a Lei 14.597. Depois de sete anos de tramitação no Congresso, o Brasil consolidou toda a legislação esportiva em um único texto com mais de 200 artigos, revogando a Lei Pelé, o Estatuto do Torcedor, a Lei de Incentivo ao Esporte e a Lei da Bolsa Atleta.

Entre as principais mudanças práticas: os contratos dos atletas passaram a ter regras mais claras sobre atraso de pagamento, com rescisão sem multa caso o clube atrase salários por mais de dois meses. Prêmios por desempenho e as chamadas luvas deixaram de ter natureza salarial, o que altera o cálculo de benefícios como férias, 13º salário e FGTS. A lei também impôs obrigações mais rígidas de transparência financeira para entidades que recebem recursos públicos ou de loterias.

Um ponto ficou de fora por veto presidencial: a revogação completa da Lei Pelé, o que gerou uma sobreposição normativa que tribunais ainda interpretam. O Tribunal Superior do Trabalho já construiu entendimentos sobre como aplicar as duas normas em conflito, mas a questão está longe de pacificada.


Lei da SAF: a virada empresarial dos clubes


Se tem uma lei que mais mexeu com a estrutura do futebol brasileiro nos últimos anos, é a Lei 14.193, de 2021, que criou a Sociedade Anônima do Futebol, a SAF.

Por décadas, os clubes brasileiros funcionaram como associações civis sem fins lucrativos, o que na prática significava pouca transparência, governança frágil e acúmulo histórico de dívidas. A Lei da SAF criou um modelo jurídico novo: o clube pode separar sua estrutura esportiva e transformá-la numa empresa com ações, conselho de administração, obrigações de publicidade financeira e regime tributário diferenciado, com alíquota de 5% sobre receitas brutas nos primeiros cinco anos.

Os resultados são mistos. O Botafogo virou SAF em 2022, recebeu investimento do empresário americano John Textor e foi campeão brasileiro e da Copa Libertadores em 2024. O Cruzeiro seguiu trajetória parecida. Por outro lado, o Atlético-MG acumula dívida de 2,2 bilhões de reais mesmo após virar SAF, e o Vasco enfrentou uma crise grave com o fundo americano 777 Partners, que prometeu investir 700 milhões de reais e não cumpriu. Em 2026, o Brasileirão tem mais de 40 clubes nesse modelo em todas as divisões profissionais, e o valor de mercado total da Série A passou de 11 bilhões de reais. A SAF não é garantia de sucesso, mas criou um ambiente jurídico que antes simplesmente não existia.


O processo legislativo por trás das regras do jogo

A Lei da SAF tramitou por anos no Congresso antes de ser aprovada. Durante esse tempo, clubes, federações, advogados, investidores e a própria CBF acompanharam, pressionaram e negociaram o texto. A Lei Geral do Esporte levou sete anos para ser votada, e o veto a um de seus artigos mais importantes veio depois de jogadores realizarem protestos dentro de campo, durante partidas do Campeonato Brasileiro, contra uma cláusula que consideravam prejudicial. É o processo legislativo em ação, com todos os seus atores, inclusive atletas usando o próprio jogo como palco de pressão política.

A Lei Bosman, que transformou o futebol mundial, nem nasceu de um parlamento: nasceu de uma ação judicial de um jogador que não aceitou ser impedido de trabalhar. Um único caso levado ao Tribunal Europeu de Justiça mudou as regras do maior mercado de transferências do mundo e acelerou a saída de talentos da América do Sul para a Europa num ritmo que o futebol brasileiro ainda tenta compensar.

As regras que moldam o futebol não caem do céu. Elas são construídas, disputadas, aprovadas e contestadas nas mesmas arenas onde qualquer outra lei é feita: no Congresso, nos tribunais, nas negociações entre grupos de interesse e relações governamentais.


O que ainda está em jogo no Congresso


Enquanto a Copa do Mundo acontece, o Congresso Nacional continua em funcionamento, e pautas ligadas ao esporte seguem na fila.


O debate sobre fair play financeiro, que a CBF está implementando nesta temporada para evitar que clubes gastem além da sua capacidade, pode eventualmente gerar necessidade de legislação complementar.


A regulamentação de agentes de jogadores, que a FIFA tenta padronizar globalmente, ainda gera tensão entre regras internacionais e nacionais. E a questão das apostas esportivas, que se tornaram uma das principais fontes de receita dos clubes em patrocínio de camisa, está no centro de um debate regulatório que ainda não terminou.


O futebol que se assiste hoje é resultado de décadas de decisões legislativas e judiciais. O futebol de daqui a dez anos vai depender das decisões que estão sendo tomadas agora, dentro e fora dos campos, da mesma forma que aconteceu com outras pautas que acompanhamos aqui no blog, como as leis trabalhistas de 2026.

Acompanhe as leis que moldam os setores que importam para você


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Card de apresentação com foto de uma mulher de óculos e fundo azul. Ao lado, o nome “Anna Carolina Romano” em destaque e o texto informando que é formada em jornalismo pela Universidade Anhembi Morumbi e atua há mais de dez anos com produção de conteúdo.

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